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  • Da redação

CPI DA CARNE ESTRAGADA: Cavallari diz que prefeito sabia dos problemas e fez duras críticas ao gover


Nardi, Beto Cavallari e Maurício Roberto, na CPI da Carne Estragada, nesta quinta-feira

Os integrantes da CPI da Carne Estragada receberam na tarde desta quinta-feira (7), o depoimento mais aguardado da Comissão: o do ex-secretário municipal da Educação, Beto Cavallari. Chegou carregando um calhamaço de documentos.

Durante cerca de três horas, ele fez relatos sobre o caso da perda de aproximadamente 7 toneladas de carnes que seriam destinadas à merenda escolar, no final de 2017. Os prejuízos aos cofres públicos foram de mais de R$ 160 mil. Em relação às compras do produto, o ex-secretário disse que só participava dos pedidos.

Cavallari revelou que em função da impossibilidade de se realizar nova licitação (já que um contrato de compra emergencial anterior havia suspenso pela Justiça) havia um processo de racionamento das carnes da merenda.

"Em uma reunião no gabinete do prefeito, com ele e membros do núcleo de poder, ficou decido que seria moída a carne. Foi moída para poder render mais e responder a um estado de crise", disse.

O ex-secretário disse que em várias situações e diretamente por ele, o prefeito soube que a câmara fria da Cozinha Piloto era insuficiente para grandes armazenamentos. O equipamento tem capacidade para três toneladas de produtos.

"NÃO FAÇO A MENOR IDEIA"

Ele afirmou não saber por que a carne estragou. "Não faço a menor ideia. Até o dia 18 de janeiro deste ano, quando eu permaneci no cargo, não havia carne estragada nem ocorrência disso. Quem ficou no meu lugar, que eu não sei quem é, talvez pode responder isso. Alguém, deliberadamente, resolveu moer toda a carne e torná-la a resfriar novamente".

Questionou o fato da secretaria municipal da Educação ter ficado "com uma janela de três dias" sem um responsável legal. "O gabinete divulgou que a minha exoneração havia sido por conta de uma reforma administrativa. Mas, como se nem um nome para me substituir ainda havia sido definido?! A Pasta ficou três dias sem secretário".

Sobre o fato da câmara fria da Cozinha Piloto ter sido sobrecarregada de carne em sua gestão, ele disse que isso foi necessário por falta do produto em uma fase crítica e falta pagamentos da Prefeitura à empresa fornecedora, além da suspensão da entrega e a empresa ter avisado que a única opção de entregar a carne seria no dia 8.

CANCELAMENTO DO CONTRATO EMERGENCIAL

Beto Cavallari juntou entre os documentos cópias de publicações do Jornal do Povo

"Então nós tivemos, na verdade, devido a todo um emaranhado administrativo de ineficiência, tivemos que receber essa carne no dia 8 de dezembro e prepará-la para a volta às aulas em 2018".

Ao final de seu depoimento, Cavallari ressaltou aos vereadores que um dia após ele ter sido exonerado, a Assessoria de Imprensa da Prefeitura divulgou fotos falsas de hambúrguer e outras carnes com etiquetas com data de validade vencida. A exoneração dele foi divulgada com exclusividade pelo JP, um dia antes e ser publicada no Diário Oficial do Município.

Prefeito Daniel Alonso com Beto Cavallari: "ineficiente e de péssimas decisões"

Sobre o fato da nova licitação da carne ter sido publicada um dia depois da exoneração dele, disse que "quem tem que responder isso é o prefeito ou o núcleo de poder dele. Fui eu, na verdade, que bateu o pé e cancelou o contrato emergencial da carne, de R$ 4 milhões. A partir disso eu não posso dizer mais nada".

"Quem tinha interesse em fazer isso e por quê? Isso precisava vir à tona", disse ele, mencionando a divulgação das tais fotos em alguns veículos de comunicação da cidade com os créditos da Assessoria de Imprensa da Prefeitura.

Em determinados momentos da oitiva, Cavallari citou a atual gestão como "ineficiente e de péssimas decisões, agindo contra as boas práticas".

Criticou o setor de finanças. "Uma situação esquisita, de vai e não vai, perda de empenhos. Muitas vezes eu tinha que corre no prédio (da Prefeitura) , uma tensão...Tudo tinha que passar pelo chefe de gabinete, ter o visto dele e depois subir para o departamento financeiro".

Cavallari comentou que em todas as suas manifestações sobre "a crise instalada da carne", nunca citou outros secretários. "Deveria ter feito isso porque muitos deles envolvidos na situação, sentaram em cima do rabo".

O procurador Alysson Alex e o secretário Levi Gomes acompanharam a oitiva do ex-secretário

O secretário municipal da Fazenda, Levi Gomes e o procurador-geral do Município, Alysson Alex de Souza e Silva, acompanharam a oitiva do ex-secretário, na Câmara Municipal. Sairam por volta das 18h, sem falar com ninguém.

Perguntado pelo JP sobre o que achou da presença dos ex-companheiros de trabalho por lá, Cavallari foi irônico. "Nem ví eles. Eu estava concentrado em dizer a verdade, prática que eles não estão acostumados".

O ex-secretário questionou laudos da carne estragada e o processo de descarte do produto estragado. Foi informado pela CPI que esses procedimentos já foram levantados e comprovados com documentos.

"ALGUMAS INCONSISTÊNCIAS E RESPONSABILIDADES"

O presidente da CPI da Carne Estragada, vereador Luiz Eduardo Nardi (autor do pedido de instalação da Comissão) disse que o prefeito não será convocado para depor. "Talvez, chamaremos o chefe de gabinete (Márcio Spósito) e o secretário de Planejamento Econômico".

Afirmou que a CPI precisa verificar ainda "algumas inconsistências" entre depoimentos, como o quanto de carne deveria ser moído e quem autorizou o recongelamento do produto. "Não haverá acareações, mas algumas pessoas ouvida poderão ser reconvocadas", adiantou ele ao JP.

Nardi disse que, apesar de ter havido reuniões no gabinete do prefeito para tratar de assuntos relacionados à carne da merenda escolar, "não se discutiu moagem da carne. Isso foi tratado no ambiente da Cozinha Piloto, onde existe inclusive um manuel de procedimentos e profissionais da área".

A CPI da Carne Estragada, formada pelos vereadores Luiz Nardi (PR - presidente), Maurício Roberto (relator) e Danilo da Saúde (membro), foi instalada no dia 20 de fevereiro deste ano, com prazo de 4 meses para a sua conclusão. A CPI já foi prorrogada por mais 90 dias.