Buscar
  • Por Adilson de Lucca

Eduardo Nascimento e Camarinha protagonizam trajetória política entre "tapas e beijos"

Atualizado: há 6 dias


"Eu quero que risque o meu nome da sua agenda, esqueça o meu telefone não me ligue mais". Esse trecho da música Telefone Mudo (Trio Parada Dura), está longe de acontecer nas ligações (as vezes perigosas) entre Eduardo Nascimento e Abelardo Camarinha. Há 22 anos esses dois personagens da política mariliense, que reúnem perfis semelhantes na tática do fogo amigo e inimigo, mesclam períodos de paz e amor e faça amor, não faça guerra


"Não". Esta foi a posição do vereador Eduardo Nascimento (PSDB), nas votações de dois pareceres do Tribunal de Contas do Estado (TCE), na sessão camarária de segunda-feira (22), os quais indicavam rejeições das contas do ex-prefeito Abelardo Camarinha referentes aos anos de 2003 e 2004 (dois últimos da terceira gestão dele na Prefeitura de Marília). O "não" de Nascimento significou aprovação das referidas contas e a posição dele soou como o chamado voto de minerva (decisivo) na pequena e suposta bancada de oposição ao ex-prefeito na Câmara Municipal. Camarinha segue respirando na trilha de futuras eleições graças aos nove votos favoráveis a ele obtidos na sessão de ontem.

Bastidores à parte, a postura de Nascimento remete a um histórico de relacionamento político sustentado por tapas e beijos e a prática do toma-lá-dá-cá entre ele e o ex-prefeito.

Nascimento em seu gabinete na Câmara, no primeiro mandato (2001/2004)

ELEIÇÕES DE 2000, O COMEÇO...

Camarinha viu seu caminho político (iniciado na prática com sua primeira eleição como vereador, em 1976) cruzar com Nascimento 24 anos depois, quando o Gordinho (como é chamado por parte de integrantes do meio político) foi eleito vereador nas eleições municipais de outubro de 2000, na chapa do prefeito reeleito (3° mandato).

Nascimento obteve 877 votos pelo PDT, sendo "puxado" pelo também pedetista eleito José Carlos Albuquerque (1.238 votos).

As maiores referências de Nascimento, naquela época, eram que ele trabalhava em farmácia e morava no Nova Marília.

Teve uma atuação discreta entre os então 21 vereadores daquela legislatura. Mesmo como terceiro secretário da Mesa Diretora tinha pouca visibilidade (não existia a TV Câmara).

Camarinha e Eduardo Nascimento dividindo o mesmo palanque em campanha eleitoral

REELEIÇÃO E LÍDER DE BULGARELI

Nascimento despertou mais a atenção e entrou para o alto clero do Legislativo quando foi reeleito pelo mesmo PDT, do qual viria a ser presidente, em 2004, com 1.933 votos (mais que o dobro da eleição anterior). Naquele pleito, Mário Bulgareli, então vice de Camarinha, foi eleito prefeito pelo PSDB e teve Nascimento como seu líder na Câmara.

Nascimento em evento promovido por ele em chácara, apoiando a dobradinha Camarinha e Vinícius, em 2006


REUNIÕES EM CHÁCARAS

O relacionamento de Nascimento e Camarinha estreitou na campanha eleitoral de 2006, quando o vereador promovia reuniões, especialmente em chácaras de futebol society, para recepcionar a dobradinha pai e filho com Camarinha (federal) e Vinícius (estadual, reeleição).

Nascimento conquistaria mais um importante degrau político em dezembro daquele mesmo ano, ao ser eleito presidente da Câmara de Marília para o biênio 2007/2008.

AS CONTAS...

É aí que surge o episódio das contas de Camarinha, as mesmas votadas na sessão de anteontem (22), na Câmara. Em 2007, com o Gordinho presidente, houve articulação no Legislativo pela rejeição das contas do ex-prefeito referentes aos exercícios de 2003 e 2004. E isso se concretizou.

Derrotado no plenário, Camarinha recorreu à Justiça usando uma velha tática para anular as votações: alegou cerceamento de defesa por não ter tido a oportunidade de se defender na tribuna da Casa, antes das referidas votações.

A Justiça acatou o pedido e a reanálise das contas se arrastou por mais catorze anos. Houve um ensaio político para que elas fossem votadas em 2019 e, caso rejeitadas, tiraria Camarinha das eleições em 2020. Apesar das pressões da gestão Daniel Alonso, a estratégia não vingou e os projetos com os pareceres do TCE continuaram engavetados.

O RACHA EM 2008

Voltando ao cenário mais distante, em 2008 começaram as articulações para as eleições municipais de outubro daquele ano. Camarinha, com a intenção de eleger o filho deputado para a Prefeitura, espalhava que o compromisso de Bulgareli, mediante o apoio dele em 2004, era de não concorrer a reeleição em 2008.

Já filiado ao PDT de Nascimento, Bulgareli se mantinha fiel ao seu padrinho Camarinha. Surgiram comentários que Nascimento seria o candidato a vice na chapa de Vinícius e Bulgareli seria, então, secretário (provavelmente da Educação) na gestão seguinte.

Mas, a medida em que se aproximava o período das convenções partidárias, em junho de 2008, o quadro não se definia. Nesse ínterim, houve a história da entrega de uma caixa de sapatos com R$ 100 mil (dos R$ 200 mil prometidos) em um escritório de advocacia....Pula!

Nascimento, vendo o risco de levar um chapéu na ventilada promessa de ser o vice de Vinícius e assistir o naufrágio de Bulgareli, foi a uma rede de tv a cabo e definiu: o professor Bulgareli seria candidato à reeleição. E fim de papo! Estava sacramentado o racha entre Nascimento e Camarinha.

Sem perfil de embate, até então (não teria coragem de desafiar o padrinho Camarinha nas urnas), Bulgareli assumiu a candidatura à reeleição sendo inflado e encorajado por Nascimento, pela primeira dama, Fátima Bulgareli (que dava beliscões públicos no marido) e pelo chefe de gabinete e homem forte da Prefeitura, Nelsinho Grancieri.

Resultado: o "Titanic", apelidou dado por Camarinha a campanha de Bulgareli, não afundou e o então prefeito desbancou o padrinho e seu filho nas urnas, vencendo as eleições com 55.580 votos, contra 40.666 do "menino".

No mesmo ano, Nascimento foi reeleito vereador com 2.750 votos e reeleito presidente da Câmara para o biênio 2009/2010.

TRIO FORTE NA PREFEITURA - Bulgareli, Nelsinho e Nascimento, em 2009

VOZ ATIVA

Com a faca e o queijo nas mãos (Prefeitura e Câmara sob o comando do PDT), Nascimento era voz ativa no segundo governo de Bulgareli. O que ele falava era ordem.

Em 2010, Nascimento resolveu sair candidato a deputado federal pelo PDT. Dobraria com o locutor de rodeios, Marco Brasil, que no fim se juntou a campanha de Paulo Lima (de Presidente Prudente).

Bulgareli tentava dissuadir Nascimento da candidatura (que chegou a ser registrada na Justiça Eleitoral). "Não tem dinheiro pra isso, você será o meu candidato a prefeito em 2012, aí vem forte", aconselhou o alcaide em um encontro no gabinete da presidência da Câmara.

Nascimento ainda faria umas viagens curtas pela região, antes de abandonar a campanha. Obteve cerca de 960 votos.

AÇÃO CONTRA A RÁDIO 950

Após sofrer uma série de ataques da "rádio do Camarinha" (Rádio 950), Nascimento ingressou com ação judicial por danos morais contra a emissora. A Justiça acolheu o pedido e determinou multa de R$ 10 mil cada vez que a rádio repetisse o ato.

Os ataques continuaram e chegou um ponto que o montante das multas acumuladas passavam de R$ 700 mil. Não se tem notícia de eventual execução desses débitos.

Atualmente, com ênfase e elogios do âncora do jornalismo, a mesma Rádio 950 reproduz as falas ácidas de Nascimento contra a atual gestão.

A DERROCADA EM 2010

O ano de 2010 seria o "Titanic" para Nascimento, com o mesmo enredo da tragédia original de quase cem anos antes (1912). Após a frustrada candidatura a deputado federal, em dezembro daquele ano, ele lançou o vereador Pedro do Gás como candidato à sua sucessão no comando do Legislativo.

A ideia contrariou interesses do decano vereador Herval Seabra (que havia apoiado incondicionalmente Nascimento como seu sucessor, em 2006) e do próprio prefeito Bulgareli. Eles "cooptaram" o vereador Amadeu de Brito (que já havia sido "cooptado" por Nascimento) e viraram o voto decisivo dele a favor de Yoshio Takaoka, que acabou eleito para o cargo.

Revoltado, Nascimento, após ouvir o resultado da apuração e estalar os olhos nas comemorações em favor do japonês no plenário, imediatamente anunciou em alto e bom som que retiraria da pauta projetos de interesse de Bulgareli, entre eles o que previa reajuste de IPTU.

Esse episódio estraçalhou o projeto de Bulgareli, Nascimento e aliados do governo para as eleições de 2012. Nascimento, de homem forte, virou oposição ao então prefeito.

Tempos depois, Nascimento e Takaoka (que antes desfrutavam juntos de momentos de lazer) saíram aos tapas após rápida discussão na porta da Câmara, fato que resultou em inquérito policial e posterior ação penal contra Nascimento, que foi condenado e teve a pena convertida em restrições de direitos (inclusive impedido de votar). Conseguiu a extinção da pena ao ser beneficiado com indulto do Governo Federal, em dezembro de 2014.

Daniel Alonso e Nascimento fizeram dobradinha na disputa pela Prefeitura em 2012, mas ficaram em terceiro lugar na disputa

DANIEL ALONSO PELO CAMINHO...

Em 2011, Nascimento, por sugestão de um jornalista, foi autor do projeto de concessão do título de Cidadão Mariliense ao proprietário da Casa Sol, empresário Daniel Alonso, sob justificativa de "seu sucesso como empreendedor que gera centenas de empregos através do grupo Casa Sol sendo por três vezes consecutivas, eleito como o dono da melhor empresa para se trabalhar, entre 150 de todo o país Brasil".

No ano seguinte, Nascimento viria a ser anunciado como candidato a vice na chapa de Alonso, na disputa pela Prefeitura. Teve uma presença discreta nas propagandas de campanha, como em outdoors que destacavam as imagens de Daniel Alonso com o governador Geraldo Alckmin.

A dobradinha ficou em terceiro lugar na disputa, com 23.004 votos. Vinícius Camarinha venceu o pleito com 61.767 votos.

DISPUTA CONTRA CAMARINHA, EM 2014

Dois anos depois, Nascimento se candidatou a deputado estadual, pelo PHS, tendo como principal concorrente o então candidato à reeleição, Abelardo Camarinha (PSB).

Nascimento tinha como apoiador e caixa forte Luiz Antonio Albertoni, o Tonhão, ex-assessor de alto escalão e homem forte de Camarinha (com quem rompeu) na Câmara Federal.

Nascimento era detonado pelo Jornal Diário, sob as rédeas de Camarinha, que se reelegeu com 79.325 votos. Nascimento obteve 7.518 votos e não se elegeu. Tempos depois, houve uma acirrada briga entre ele e Tonhão, que acabou rendendo ações nas Justiças Criminal , Cível e Eleitoral.

Nascimento sorrindo e fazendo gesto de "seis" no TRE, após julgamento de ação movida por ele pedindo a cassação de Camarinha

AÇÃO CONTRA CAMARINHA NA JUSTIÇA ELEITORAL

Após as eleições de 2014, Nascimento ingressou com ação na Justiça Eleitoral contra Camarinha, pedindo a cassação do registro e mandato dele sob alegação de abusos do poder econômico e de mídia (principalmente pelos ataques do Jornal Diário) durante a campanha eleitoral.

Camarinha foi absolvido das acusações na Justiça Eleitoral em Marília, mas houve recurso dos advogados de Nascimento ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Em janeiro de 2016, Camarinha foi julgado e por unanimidade (6 a 0) os desembargadores do órgão decidiram pela cassação dos direitos políticos dele por oito anos.

Nascimento, que acompanhou o julgamento pessoalmente no Tribunal, em São Paulo, comemorou a derrota de Camarinha na corte, sorrindo, posando para fotos e fazendo sinal de "seis" com as mãos.

No recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o deputado reverteu a situação e foi novamente absolvido.

Nessa época, Camarinha dizia que seria cassado "quando o sargento Garcia prendesse o Zorro". Sargento Garcia era uma referência a Nascimento.

NASCIMENTO VIROU SECRETÁRIO DE ESPORTES

Nas eleições de 2016, os dois personagens ficaram novamente em campos opostos, com Camarinha apoiando a reeleição do filho, Vinícius. Nascimento saiu como candidato a vereador na chapa do candidato a prefeito Daniel Alonso (PSDB), que foi eleito com 50.113 votos. Vinícius ficou em segundo lugar com 48.218 votos. Nascimento não se elegeu vereador e acabou sendo nomeado secretário de Esportes naquela gestão.

CAMPANHA CALMA EM 2020

Após a serena campanha eleitoral de 2018 (sem a presença dos dois personagens), em 2020, Nascimento se candidatou novamente a vereador na chapa de Daniel Alonso. Ao contrário de campanhas anteriores, o clima entre ele e Camarinha (que disputou a Prefeitura) foi de paz e amor, sem nenhum "incidente". Camarinha foi impugnado pela Justiça Eleitoral e Alonso se reelegeu com 55.060 votos. Nascimento foi eleito vereador com 2.318 votos.

Desde que perdeu as disputa pela presidência da Câmara para Marcos Rezende (que obteve 11 dos treze votos), Nascimento rompeu com Daniel Alonso e seu grupo. Passou, então, a ser mais bajulado por Camarinha e seu staff nas redes sociais.

CAMARINHA DESISTIU DE AÇÃO CONTRA NASCIMENTO...

Poucos dias após as eleições, em novembro do ano passado, Camarinha e aliados (comando do partido Solidariedade), desistiram de uma ação que haviam impetrado contra Nascimento, onde pediam a cassação do registro da candidatura dele alegando cláusulas da Lei da Ficha Suja. A Ação tramitava no TRE, quando foi protocolado o pedido de desistência.

...E NASCIMENTO FOI VOTO DECISIVO A FAVOR DE CAMARINHA

Enfim, nesse enredo todo, chegamos à última segunda-feira (22), com Nascimento votando a favor de Camarinha e contra os pareceres do Tribunal de Contas do Estado (TCE) que indicavam rejeições das contas do ex-prefeito, referentes aos exercícios de 2003 e 2004 dele na Prefeitura. O mesmo clima de amistosidade que ambos vivam naqueles anos, imperou nas votações da última segunda-feira.



296 visualizações0 comentário