Pinheiro foi candidato a prefeito de Marília em 2024 e obteve cerca de 3 mil votos
O empresário João Henrique Pinheiro, deverá ser extraditado da Espanha (onde está preso) para a Bolívia para responder por fraude ligada ao fracassado projeto do Complexo Industrial da Cana-de-Açúcar (Cicasa), em Bermejo, Tarija.
O jornal boliviano El País publicou que a chegada de Pinheiro é esperada nos próximos dias e será encaminhado para julgamento. Ele foi preso em 27 de maio de 2025, em Madri, logo após desembarcar naquele país.
Desde então, produtores de cana-de-açúcar organizados na Federação dos Produtores de Cana-de-Açúcar do Sul (Fecasur), têm corrido contra o tempo para garantir a extradição do criminoso, em processo que está em fase final. Segundo Rodolfo Garzón, líder da Fecasur e representante das vítimas do fracassado projeto Cicasa, a transferência do acusado poderá ocorrer nos próximos dias, com o objetivo de iniciar o julgamento antes da primeira quinzena de abril. “Os prazos já expiraram. A notificação oficial estipulava 45 dias, que já se passaram. Isso significa que, na primeira semana ou quinzena de abril, essa pessoa deveria estar na Bolívia para dar seguimento ao processo legal”, explicou em entrevista ao El País.
Pinheiro tem condenação por estelionato na Justiça em Marília. No ano passado, a defesa dele tentou extradição para o Brasil, para cumprir a pena, mas não conseguiu.
PROMESSA E GOLPE
O caso Cicasa remonta a 2019, quando produtores de cana-de-açúcar de Bermejo investiram na construção de uma usina para processar sua matéria-prima, que historicamente sofre com a falta de infraestrutura na região. Todos os anos, toneladas de cana-de-açúcar ficavam sem ser colhidas, gerando prejuízos econômicos constantes. Nesse contexto, a proposta de Pinheiro surgiu como uma oportunidade para transformar a realidade produtiva do sul de Tarija e 400 famílias estão sob a sombra do golpe.
A Cicasa foi projetada para processar cerca de 2.500 toneladas de cana-de-açúcar por dia, reduzir a dependência da antiga usina da IABSA, gerar empregos e reativar a economia local.
No entanto, o que começou como uma esperança de desenvolvimento se transformou em um suposto golpe. Segundo Garzón, o empresário apresentou máquinas e infraestrutura que não lhe pertenciam para sustentar sua proposta.
Prejuízos milionários Embora o contrato inicial estipulasse um adiantamento de US$ 700.000, os prejuízos financeiros superam em muito esse valor e chegam a cerca de R$ 4 milhões.
Garzón explica que os produtores fizeram investimentos adicionais em compras de terras, estudos técnicos, terraplenagem, obras civis e perfuração de poços.
“Não se trata apenas dos US$ 700.000 que pagamos a esse homem; houve enormes despesas em decorrência desse projeto, incluindo estudos e análises técnicas”, afirmou.
O impacto não foi isolado. Cerca de 400 famílias foram diretamente afetadas em uma região cuja economia depende fortemente do cultivo da cana-de-açúcar.
Antes de sua prisão na Espanha, Pinheiro levava uma vida normal no Brasil. Apesar de ter um mandado de prisão internacional da Interpol em aberto por conta do caso movido contra ele por produtores de cana-de-açúcar de Bermejo, na Bolívia, ele estava em liberdade.
Garzón sugere que isso se devia à influência que o empresário exercia. Ele foi finalmente preso em maio de 2025. Desde sua prisão na Espanha, Pinheiro teria esgotado diversas vias legais para evitar a extradição, chegando a solicitar transferência para o Brasil.
Enquanto isso, seus representantes legais na Bolívia tentaram estabelecer canais de reconciliação com as vítimas, mas esses esforços, apesar das melhores intenções, foram infrutíferos.
"Tivemos reuniões, mas entendemos que eles estavam apenas tentando nos distrair ou obter algum documento que os beneficiasse. Nunca houve qualquer intenção real de reconciliação", declarou o líder.
A extradição foi possível após a intervenção das autoridades judiciais espanholas, que, segundo as vítimas, estavam plenamente informadas sobre o caso. O processo também contou com o apoio de instituições bolivianas, como o Ministério das Relações Exteriores, a Polícia e a Interpol. Expectativa e Cautela Antes do Julgamento Com a iminente chegada de Pinheiro ao país, as vítimas agora concentram sua atenção no processo judicial.
Embora reconheçam o trabalho das autoridades bolivianas, também expressam preocupação com a capacidade do réu de apresentar uma defesa sólida. "Eles podem contratar vários advogados. Nós só temos um, mas vamos reforçar nossa defesa. O que pedimos é que a justiça nos proteja e aja com transparência", declarou Garzón.
Apesar das dificuldades, os produtores mantêm a expectativa de recuperar ao menos parte dos recursos investidos e de estabelecer um precedente para casos semelhantes. “Uma região inteira foi afetada. Persistimos por anos e confiamos que desta vez a justiça será feita”, enfatizou Rodolfo Garzón, líder da Fecasur.
Ele mencionou que a extradição de João Pinheiro não só representa um marco para aqueles que foram lesados, que esperavam desenvolvimento por meio de um projeto, mas também para aqueles que esperam que a justiça seja feita, que o dinheiro roubado seja recuperado e que uma indústria para o setor canavieiro se materialize.
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