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  • Por Adilson de Lucca

Sob ameaça de desocupação, camelôs aguardam nova audiência judicial e buscam apoio político


REPORTAGEM ESPECIAL

Representantes de cerca de 150 camelôs instalados às margens da via-férrea da concessionária Rumo Malha Paulista, na área central de Marília (ao lado do Camelódromo) participarão de uma audiência decisiva na próxima quinta-feira (1°) na Justiça Federal.

Eles terão que decidir se aceitam uma proposta da Rumo Logística (concessionária que detém a posse do espaço ocupado pelos camelôs e moveu a ação de desocupação alegando a volta dos trens) para deixar a área ocupada até o final de fevereiro de 2024 ou aguardam a decisão da demanda a critério e tempo da Justiça.

Uma audiência de conciliação entre as partes na Justiça Federal na tarde da terça-feira passada (17), terminou sem acordo.

O representante dos camelôs, Ademar Aparecido de Jesus, o Dema, 63 anos, adiantou ao JORNAL DO POVO que, conforme decidido em duas assembleias com os camelôs, não será aceita a proposta de prazo até fevereiro para desocupar a área. Perguntado de tem ciência que, neste caso, o juiz federal Fernando David Fonseca Gonçalves, poderá determinar a desocupação da área a qualquer momento, inclusive com reforço policial, se necessário, ele disse que sim. "Mas decidimos aguardar o peso da caneta do juiz. Ainda acreditamos na justiça, na consciência da justiça do problema social que representa essa desocupação e que não há necessidade dessa desocupação", disse Dema.

Ademar Aparecido de Jesus, o Dema, líder dos camelôs

APOIO DE VEREADORES

Uma das alternativas, já em ação, foi buscar apoio dos vereadores da base de sustentação do prefeito Daniel Alonso (PL) na Câmara Municipal.

Durante a sessão camarária desta semana, representantes dos camelôs se reuniram com uma comissão formada pelos vereadores Marcos Rezende (PSD), Júnior Moraes (PL) e Marcos Custódio (Podemos) para tratar da questão.

Ficou decidido que o trio manteria contato com o prefeito para agendar uma reunião com os representantes dos camelôs e discutir a busca de uma solução para o problema. Ontem, Dema foi informado que os vereadores não conseguiram falar com o prefeito porque ele está viajando desde terça-feira.

A decisão de representantes dos camelôs de buscar pelos vereadores tem um motivo: Dema e o prefeito Daniel Alonso mantiveram uma "política de boa vizinhança" em 2020. "Ele precisava da reeleição", justifica Dema.

O representante dos camelôs vem disparando criticas ao posicionamento do prefeito sobre o imbróglio com a Rumo Logística. "Virou as costas para nós e está nos perseguindo", lamenta.

Outro entrave nesse conturbado relacionamento é que representantes da Prefeitura (que figura como terceira interessada na ação) que participaram da audiência na Justiça Federal, entre eles o secretário de Planejamento Urbano, José Antonio de Almeida, deixaram claro que a Prefeitura também tem interesse na desocupação da área onde estão os camelôs porque pretende (embora sem prazo definido) executar um projeto de implantação de um parque linear com paisagismo e ciclovia às margens dos trilhos da Rumo.

"A verdade é que todo mundo que conhece esse local sabe que os trens não vão voltar a circular por aqui tão cedo e que o parque linear também não vai sair do papel porque o ano que vem é ano político e não há tempo para isso. Então, a questão é de vontade política e bom senso", disse Dema.

CAFÉ DA TARDE COM VEREADORES

Está programado para a tarde desta sexta-feira (26), na antiga estação ferroviária, um café entre camelôs que ocupam a área e vereadores.

"Já deixamos bem claro para os vereadores da base do prefeito, na reunião da Câmara, que nossa cobrança é com eles (vereadores), que têm realmente interesse na reeleição", afirmou Dema.

QUESTÃO SOCIAL

Em entrevista ao JORNAL DO POVO nesta quinta-feira (25), Dema disse que os camelôs estão cientes que terão que deixar a área ocupada. "Lutaremos até o fim, buscando todas as alternativas para evitar isso, mas sabemos da realidade. Ocorre que há espaço físico para manutenção dos boxes fora da área de segurança dos trilhos. Reduzido espaços de cada boxe, isso é possível. Quem conhece o espaço onde estamos instalados sabe que isso é possível. Basta vontade política e compromisso social", explicou Dema.

Na questão social, ele lembra que são 150 famílias que dependem exclusivamente da atividade de camelô no local para sobreviverem.

"Por trás de cada boxe aqui instalado, existe uma história que superação. Pessoas sem condições de acesso ao mercado de trabalho, seja por idade ou perfil educacional e cultural, que encontraram aqui, desde que começamos os trabalhos em 2018, a sobrevivência e dignidade para suas famílias", afirmou Dema. "Essa gente toda não tem para onde ir no caso de desocupação obrigatória. Dezenas de famílias perdendo o sono com essa triste situação", completou.

ECOLOGIA

O Projeto Eco Estação, implantado no local, tem vários pontos de coleta de materiais recicláveis. Em um ano, foram coletadas, por exemplo, 60 toneladas de vidro. Toda a renda das vendas desses materiais é destinada para ações sociais do Projeto Estação.

"ERA UMA CRACOLÂNDIA"

Dema lembra que antes da formação do Projeto Estação, que criou atividades culturais e de cidadania no espaço da antiga estação ferroviária, o local era tomado por mendigos, moradores de rua, desocupados e viciados em drogas. "Era uma cracolândia. Nem polícia entrava aqui. Um cenário horroroso em pleno centro da cidade, com onda de furtos, riscos e confusões. Quem em sã consciência deseja a volta disso e quem será responsabilizado por uma situação dessas?".

Ele disse que após o começo das atividades do Projeto Estação e de instalação dos primeiros boxes, a área foi ganhando outro panorama. "Tudo esforço de quem está aqui hoje, sem um centavo de políticos ou do poder público. Todos aqui pagam tarifas de água e luz e taxas de micro empresas individuais. Todos aqui ainda ajudam na arrecadação municipal", ressaltou Dema.

"Com muito trabalho, diálogo e respeito, limpamos toda a área e implantamos disciplina. Hoje, qualquer pessoa pode passar por aqui a qualquer hora do dia ou da noite que não será importunada. Há algumas pessoas, moradores de rua que dormem aqui, mas sem sujeira, sem criar problemas. Respeitamos a dignidade deles e eles o nosso espaço", explicou.

PERSONAGENS

Silvana Rodrigues da Silva, 47 anos, tem um boxe onde vende legumes que ela e o marido produzem. "Estamos desesperados com esse risco de ter que sair daqui porque tiramos o sustento da família daqui. Não temos outra renda. Esperava que o prefeito ajudava nós e outras famílias que trabalham aqui para levar o sustento pra casa".

Marinalva Jesus Trindade de Melo, 52 anos, tem um boxe onde vende roupas. "Estou aqui desde o começo. Já trabalhei no comércio, mas hoje sustento a família com esse trabalho. São sete filhos e oito netos e meu esposo desempregado. Não temos condições de pagar um aluguel no comércio".

Carmelita Alves de Almeida, 63 anos, a camelô mais antiga em atividades em Marília. "Trabalhei quinze anos como camelô na rua e formei minha família com essa atividade. Hoje estou aqui com um boxe e acredito que não haverá desocupação, que as autoridades vão ajudar e continuaremos trabalhando aqui, todos nós. São pessoas de idade, que não arrumam mais trabalho e dependem daqui para sobreviver e sustentar suas famílias. Tenho certeza que haverá um acordo e com jeito isso será resolvido. Tenho fé e esperança nisso".




Começo dos trabalhos no local







Justiça Federal também realizou ações de cidadania no Projeto Estação


Justiça Estadual também participou do mutirão de atendimentos no Projeto Estação


Prefeito Daniel Alonso em atividades sociais do Projeto Estação, em 2020

Casamentos comunitários gratuitos realizados no Projeto Estação




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