Há um ano, a Polícia Federal lacrava o Jornal Diário. Sorte do prefeito! Crise e atrasos de salários atormentavam funcionários

January 24, 2018

        Viaturas da Polícia Federal em frente o jornal Diário, lacrado no dia 24 de janeiro de 2017

 

Hoje, quarta-feira (24), completa um ano que circulou aquela que seria a última edição do jornal Diário de Marília. No mesmo dia, o site do jornal também foi "apagado". A edição número 25.302 (considerando-se a fusão com o antigo Correio de Marília, em 1992), trouxe a manchete na cadência do que seria sua linha editorial a partir daquele janeiro: "Daniel Alonso extingue incentivo a diretores do projeto de ensino integral". 

Uma grande foto de abertura (em 6 colunas no alto da página!) mostrava um paciente que, conforme a legenda, tinha que tirar dinheiro do bolso para comprar produtos de saúde que deveriam ser cedidos gratuitamente pelo município. De quebra, também trazia outra chamada de capa nesta tendência: "ONG contesta ações municipais no combate à leishmaniose".

Daí, pode se dizer que a lacração do jornal Diário selou a sorte grande do prefeito Daniel Alonso (PSDB), pois o Diário, em que pese todos os percalços, ainda era líder de assinantes (cerca de 6 mil), anunciantes e vendas em bancas. No domingo (22), haviam sido registradas mais de duas mil vendas de exemplares avulsos, numa edição que trouxera nomes, cargos e salários de dezenas de servidores comissionados que haviam sido nomeados pelo novo prefeito. O chumbo continuaria sendo grosso para os lados do Paço Municipal. Principalmente com tantos motivos, ações e situações favoráveis nesse sentido, criados pela atual administração.

Naquela manhã de terça-feira, viaturas da Polícia Federal estacionaram defronte o prédio de número 55 da Rua Coronel Galdino de Almeida, na área central da cidade, onde funcionava a sede do jornal.

                                         Capa da edição 25.302 do Jornal Diário: foi a última!

 

VIATURAS DA FEDERAL POR LÁ

Se bem que viaturas da Federal por lá já não causavam tanto espanto! Meses antes, elas baixaram no mesmo endereço para lacrar as Rádios Dirceu AM e Diário FM. A Dirceu, emissora capenga e com baixa audiência não fez tanta falta. Já a Diário FM, que tinha como slogan "é mais legal", virou a mais ilegal. Tinha boa audiência. Na mesma ação, foram expedidos pela Justiça Federal sete mandados de prisões contra pessoas envolvidas na "direção"! do jornal.

A edição do Diário do dia 24 de janeiro de 2017, trazia, ironicamente, um "calhau"  institucional de vendas de anúncios na página 3, que dizia: "Faça sua empresa virar notícia". E o próprio jornal virou notícia!

O que ninguém esperava, nem imaginava, é que daquela vez (24 de janeiro de 2017), a ordem da Justiça Federal era para a lacração do jornal. Uma meia dúzia de adversários políticos do jornal logo chegaram na frente da CMN (Central Marília Notícias) para acompanhar a movimentação. Na verdade, nem eles poderiam imaginar o alcance da chamada "Operação Miragem", que para eles se fundiu com o próprio nome. 

O título da operação, segundo os delegados que comandaram as ações e concederam uma entrevista coletiva à imprensa, devia-se ao fato do jornal ser tendencioso, proteger o governo anterior e "só mostrar coisas boas", como se os problemas não existissem. Miragem, significado: "aquilo que se apresenta como algo muito bom, mas que não é verdadeiro; falsa realidade, ilusão, quimera, sonho".

SITUAÇÃO COMPLICADA

      Faixa exibida durante "piquete" de jornalistas na Praça Saturnino de Brito, em dezembro de 2016

 

O jornal Diário vinha capengando e se arrastando durante 2016, com atrasos de salários, férias, benefícios e cestas básicas de seus cerca de 70 funcionários. Parte dos salários de dezembro de 2016 e de janeiro, além do 13° salário,  estavam atrasados. Na véspera do Natal, parte dos funcionários recebeu o que chamaram de "vale panetone": R$ 200 para cada um!

O clima na redação, principalmente, era pesado. No início de dezembro, jornalistas chegaram a fazer um piquete na Praça Saturnino de Brito, com a presença de um representante do Sindicato dos Jornalistas e ameaçaram entrar em greve. Um acordo, também não cumprido, evitou a paralisação. Alguns estagiários passavam pela redação, mas no final do mês, sem receber, "sumiam".

Os vendedores de publicidades, muitos deles com longos anos de atuação no ramo e sólidas carteiras de anunciantes, não recebiam suas comissões. Já não tinham ânimo para vendas. Somente "passavam" pela empresa para sondar a situação e atender alguns clientes mais tradicionais. Os vendedores já haviam ficado em maus lençóis com os anunciantes após o fechamento das rádios. 

O destino da maioria dos funcionários foi mesmo a Justiça do Trabalho, por onde correm dezenas de ações. Profissionalmente, o pequeno grupo de jornalistas que "segurava" a redação, tomou outros rumos. 

O editor Marcelo Muryama atua como assessor de imprensa da AMTU e no setor de mídia do Colégio Cristo Rei, o repórter Carlos Rodrigues está na assessoria da secretaria municipal da Saúde, o editor de esportes, Miquele Marvulo atua na Assessoria de Imprensa da Prefeitura, o repórter policial Alcyr Neto está como assessor de imprensa na Prefeitura de Garça, a colunista social Catherine Hila está trabalhando numa loja de confecções, os fotógrafos Paulo Cansini e Alexandre de Souza voltaram para informalidade do setor e o chargista Adilson de Lucca (este que ora voz escreve) continua editando o Jornal do Povo e o portal do JP. De vez em quando, faz uma charge. 

O futuro do jornal, diante da crise financeira interna, era incerto. Algumas edições tinham o volume reduzido por falta de papel para impressão. As bobinas e quantidades de páginas e exemplares eram minuciosamente calculadas pelo setor de produção, assim como materiais de consumo gráfico, como chapas e filmes de impressão. O aluguel do prédio estava atrasado há vários meses. Os dois veículos do jornal estavam penhorados, assim como boa parte dos bens da empresa. A maioria para garantir garantir pagamentos de indenizações trabalhistas e ações judiciais contra o jornal. 

Mas o fechamento relâmpago, da noite para o dia, literalmente, era inimaginável. Como funcionava numa espécie de alavanca para interesses políticos/eleitorais, a expectativa dos funcionários era que, de um jeito ou de outro, a situação seria resolvida.

Bem provável que, para os donos do jornal, ou supostos sócios ocultos como apontaram os Federais, a situação se resolveu, de fato, com a lacração definitiva da empresa. Tanto, que no calor dos fatos, até impetraram com um pedido de liminar no STF para tentar reabrir o jornal. Mas, pensando bem, com as coisas mais calmas, acabaram deixando isso pra lá. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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