Lins, que tem o primeiro prefeito gay assumido do Brasil, vai realizar a "Semana e Parada da Diversidade", a partir de segunda-feira

 

        

         Prefeito de Lins, Edgar de Souza com o atual companheiro, Max de Souza

 

Lins (a 73 quilômetros de Marília) vai realizar a partir desta segunda-feira (24) a primeira edição da Semana da Diversidade, que tem como tema "Celebrando o Orgulho de Viver a Diversidade", direcionada a comunidade LGBT.

O prefeito de Lins, Edgar de Souza (PSDB), é homossexual e assumiu esta condição durante seu primeiro mandato. E março de 2017, ele se casou com o empresário Alexandre Luciano Trindade, mas atualmente eles não estão mais juntos.

 

 CASAMENTO GAY: prefeito Edgar se casou com o empresário Alexandre (não estão mais juntos). Eles entraram acompanhados pelos pais, familiares, além de pajens e daminhas de honra com as alianças. O “sim” teve direito a lágrimas e beijo. A juíza de casamento Aline de Oliveira, expediu a certidão de matrimônio. “Fizemos questão desse momento para dizer a todos que nos amamos. Corrupção é feio, lavagem de dinheiro é feio, mas o amor é muito bonito”, discursou o prefeito 

 

O EVENTO

A Semana da Diversidade de Lins terá palestras, debates e apresentações de dança e teatro. A programação segue até o domingo (30), quando será realizada a Parada da Diversidade, com a apresentação de DJs, drag queens e show de Gloria Groove.

A semana será aberta oficialmente no dia 24, às 19h30, com a exibição do curta-metragem "Beira Infarto" e uma roda de conversa. Durante a semana, haverá aula de zumba (dia 25), Fórum de Debates: Cidadania e Direitos LGBT (dia 26), exibição da peça teatral "Psicomaquia" (dia 27), entrega do prêmio "Cidadão Amigo da Diversidade" (dia 28) e Jogos da Diversidade (dia 29).

No domingo (30), a partir das 14h, será realizada a Caminhada " Orgulho", com concentração na Praça Oscar Marchetti Antunes, na marginal Tiradentes (Atrás do Preve Objetivo). Às 17h, terá início a Parada da Diversidade. O show da cantora Gloria Groove está previsto para às 20h, na Casa da Cultura de Lins. A entrada no local será 1 quilo de alimento não perecível.

A Semana da Diversidade é realizada pelo Coletivo SOMOS e pela Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, com o apoio da Prefeitura de Lins e Comissão Municipal da Diversidade Sexual de Lins, concepção Museu da Diversidade Sexual, e execução da Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) e Edital Mais Orgulho 2019.

CARREIRA E CASAMENTO DO PREFEITO

Edgar de Souza já ocupou a cadeira de vereador por três mandatos consecutivos, se elegeu prefeito de Lins em 2012, sendo reeleito em 2016. Agora, está com o diploma cassado pelo TSE acusado de abusos na campanha eleitoral.

Ele foi o único candidato homossexual assumido a se eleger nas eleições de 2012 em todo o país ao cargo de chefe do Executivo, segundo levantamento da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Sociólogo formado, ligado à igreja católica e à teologia da libertação, o prefeito começou cedo na política. Em entrevista ao G1, Edgar contou que, apesar dos ataques dos adversários na campanha, sua trajetória na vida pública foi o principal motivo para obter 53,23% dos votos válidos e garantir a eleição.

"Hoje sou muito feliz. Extremamente feliz. Por que se incomodar com a sexualidade alheia? Quem tem convicção da sua não se incomoda com a do outro. No que a minha sexualidade te atrapalha? Essa invasão da vida íntima das pessoas é feita de forma pejorativa. Dizem que sou anormal. Eu sou normal, não sou azul, não tenho três braços. Na vida pública a gente preza pela transparência, não fazia sentido esconder quem eu amo e quem eu respeito", afirma. Por que se incomodar com a sexualidade alheia? Quem tem convicção da sua não se incomoda com a do outro"

Atualmente com 40 anos, Edgar começou a conquistar a confiança da população aos 21 anos, com o início do primeiro mandato como vereador. A homossexualidade, no entanto, ainda não era declarada. De lá para cá, ele seguiu como vereador por outros dois mandatos consecutivos até sair candidato a prefeito no ano passado.

Em 2004, na reeleição para vereador, surgiram os primeiros comentários sobre sua posição sexual. Mas não tão forte quanto na eleição para a cadeira principal da prefeitura. A questão da homossexualidade só foi abordada por ele em público na campanha durante o último comício antes do pleito municipal. Ele falou no palanque: “Eu não tenho que esconder com quem eu vivo, quem eu amo. Se eu esconder, não mereço ser prefeito de vocês. Deus me ama como homossexual”.
Já sua vida íntima sempre foi usada para receber ataques dos adversários. Segundo Edgar, os políticos tentaram usar sua opção sexual para atrapalhar a candidatura. “Nunca usei a homossexualidade para levar uma bandeira e tudo o que eles tentaram fazer caiu por terra. Minha opção não define meu caráter e meus votos foram devido à minha história política.”
Na campanha, ele afirmou que a sexualidade não era relevante para o processo eleitoral. Mas para os concorrentes, sim. “Estão rolando dois inquéritos na polícia sobre panfletos distribuídos com fotos minha com meu companheiro. Foram enviados pelos Correios de 5 mil a 10 mil cartazes. No material tinha uma foto minha com Alex. Ele com a cabeça deitada no ombro e com vários corações.”

Outro ataque político conseguiu ser interceptado às véspera do dia da votação. “É comum que panfletos sejam distribuídos nas ruas. Equipes trabalharam na madrugada para evitar que o panfleto fosse espalhado. Tratava de um panfleto com minha foto como uma drag queen, com uma peruca horrorosa.”
Adolescência
O prefeito contou que sofria demais quando tinha relação com algum homem ainda na adolescência. A primeira relação sexual foi com um rapaz aos 14 anos. “Na hora tem o desejo, mas depois vinha a carga religiosa, a carga moral. Era um sofrimento danado. Chegava em casa chorando. Tomava banho e esfregava o braço até quase sair a pele. Ficava sentindo o cheiro da pessoa e me virava o estômago. Em programas de televisão que discutiam a homossexualidade, as pessoas falavam que se libertavam aos 19 anos. E daí eu falava que precisava me curar. E por coincidência ou algo que a própria mente projetou, aos 19 anos eu me assumo também pra mim. Sair do armário não tem que ser para os outros. Tem que ser para você. Esse é o grande passo porque você rompe a barreira da depressão, do sofrimento”, avisa.

Edgar de Souza afirma que também fez sexo com mulheres. A primeira vez, aos 16 anos. Atualmente, o prefeito de Lins tem uma relação estável há 15 anos com outro homem, Alex, de 37 anos. Os dois trocaram alianças depois da eleição, casaram e moraram juntos em uma casa com dois meninos, de três e dois anos, além da mãe das crianças. Elas foram adotadas depois de um problema com o pai, que é dependente químico.
Me senti muito ofendido quando o Marco Feliciano colocou no Twitter que o destino da criança criada por casais homoafetivo é ser vítima de pedofilia. É uma idiotice que não tem tamanho."

Religião
Na vida pública, Edgar sofreu preconceito dentro da igreja, mas ele diz que está com a consciência tranquila. “A minha formação cristã fez eu reconhecer que Deus me ama como homossexual. Dentro da igreja sempre tive a consciência muito tranquila. Tive um problema de embate pessoal com a doutrina quando houve a publicação de um documento do Vaticano do Papa Bento XVI, que falava que os homossexuais não poderiam atender ao sacerdócio. Mas a vivência nas comunidades é muito maior do que isso.”
A opção sexual dividiu seus apoiadores religiosos na campanha eleitoral. “Durante a campanha (2012) tive apoio de vários pastores e de muitas igrejas evangélicas. Não podemos generalizar. Obviamente também tiveram vários pastores que foram contra por conta da minha homossexualidade. Também tiveram católicos mais conservadores que acham que a homossexualidade é um problema.”
Marco Feliciano
O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC), que presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDH) e é alvo de protestos por todo o país, também deixou o prefeito de Lins indignado com algumas declarações. “Me senti muito ofendido quando o Marco Feliciano colocou no Twitter que o destino da criança criada por casais homoafetivo é ser vítima de pedofilia. É uma idiotice que não tem tamanho. A maior parte de casos de pedofilia acontece em relações heterossexuais, porque a maior parte das pessoas é hetero. Larga a mão de ser idiota falar uma coisa dessa. Ele coloca todo mundo sob suspeição. Sabe aquela coisa, se na rua tem um traficante todo mundo se torna traficante.”

 

 

 

 

 

 

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